A bruxa

Passei a ser assombrada, nos últimos dias, por um novo sofrimento. Um medo de que qualquer coisa de ruim aconteça para qualquer uma das grávidas que conheço – nesse momento, acreditem vocês, são 5. E qualquer uma das que vier a conhecer. Não só um medo de quem se preocupa com elas e não quer que sofram o que eu sofri. Mas um medo de quem acha que será culpada se algo der errado. 

Tenho medo de ter me transformado em um monstro de dor e amargura, que espalha isso por aí. Aquela pessoa de quem todo mundo foge porque ela não tem tem nada de bom pra oferecer. “Olha lá, melhor se benzer, vai que ela te coloca um mal-olhado”. E eu acredito quando a Lu diz que a gente é o que trabalha pra ser. E tento ser a mesma pessoa empática e solidária. Mas a verdade é que não dou conta de entrar em uma loja de bebês e comprar um presente porque, de uma maneira egocêntrica, parece que a existência da loja já é um sinal que eu fracassei. Olha só, fui chutada do trem, mas a vida continua, mesmo que eu mesma só tenha gerado morte. Que mau agouro ficar perto de alguém assim.

A imagem que me veio dessa lenda, e  dessa música. A bruxa que suga o sangue, a energia, a vitalidade das pessoas. Meu medo é virar a bruxa que suga a alegria alheia.

Talvez tenha sido porque assistimos Babadook. E no filme há essa impressionante metáfora para o luto. O medo é, na verdade, que o luto tome conta de mim. A bruxa não sou eu. Eu sou vítima, ela já levou minhas crianças do meu ventre. Mas ela não vai me levar, não vai tomar o meu lugar, ela não vai levar tudo o que eu tenho de precioso, porque eu resisto.

Só que ela também não vai embora. Ela cobra um preço alto pra me deixar viver. Tem uma dieta de lágrimas que não pode ser negligenciada. Ou eu assumo sua presença e a alimento de tempos em tempos, ou ela me parasita.

Dançaremos então, eu e a bruxa, buscando esse difícil equilíbrio.

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O Império dos Hormônios – ou ainda: gente é bicho

Os primeiros dias depois do aborto foram de um sofrimento inominável. Além de chorar compulsivamente, eu sofria pelo pedaço de mim que tinham arrancado. Tudo doía. Existir doía. Lembrar que meu útero estava vazio doía.

Acontece que o organismo demora uns bons dias (semanas, talvez?) para eliminar todos os hormônios da gravidez. Capaz que se eu fizer um teste desses de farmácia agora ele ainda dê positivo.

Mas aí, semana passada, aconteceu uma coisa constrangedora. Encontramos uma colega de trabalho do Daniel na fila do cinema. Como ele havia contado pras pessoas que seria pai de gêmeos – e tava adorando a atenção recebida – ela nos cumprimentou e, dois minutos depois, perguntou se minha gravidez estava sendo tranquila.

Eu já fui essa pessoa que perguntou a uma mulher não-mais-grávida como estavam as coisas. E olha, era uma situação em que a pessoa já estava me detestando, eu precisava quebrar o gelo e tentar ganhar a simpatia dela, e dei uma gafe dessas. Foi um daqueles momentos em que a gente quer ser tragada pelo chão. Talvez o pior constrangimento de toda a minha vida.

Por isso senti uma tremenda empatia pela moça. Porque pra mim já não doía tanto dizer que eu não estava mais grávida. Doeu contar pra família, que cria expectativas. Para uma pessoa quase estranha, era só uma informação desagradável.

E depois eu achei graça. Um riso mórbido de quem se dá conta de que virou uma fonte de constrangimento ambulante – vida, sua sacana. No dia seguinte, marido disse que passou na mesa da moça e ficaram uns 5 minutos no jogo de constrangimento “me desculpe”, “eu que me desculpo, você não tinha como saber”, “mas eu não deveria ter perguntado”, “você tava tentando ser gentil”.

A simples imagem dos dois nesse jogo do constrangimento me fez gargalhar. GAR-GA-LHAR.  Sabe quando você se dá conta de que não é o centro do universo? Eu saí do centro da minha dor. De repente, o luto não era mais sobre mim, mas sobre o constrangimento alheio. Eu não era mais uma vítima solitária, mas uma personagem da comédia humana.

E bom, rir libera serotonina, né? Um hormônio também. De repente eu tava mais leve e sorridente. E até com alguma satisfação de quem sobreviveu, ufa. É triste pra caramba, mas eu tô bem, não perdi minha capacidade de rir de mim mesma. Tudo vai se ajeitar. O buraco no peito vai ficar pra sempre, mas todo mundo tem suas perdas. Essas serão as nossas.

E foi essa a receita. Uma dose maior de serotonina, menos Beta-HCG e progesterona, e de repente eu me reconheço de novo. Mas fica o assombro com o quanto o organismo é refém desses processos químicos. O quanto nenhuma reflexão equilibrada dá conta de retomar o equilíbrio.

Da (ausência de) culpa

Não, eu não estava empolgadona desde o começo, mas tava curtindo.

Só que quando descobri que eram dois, pensei seriamente em não continuar com a gravidez, tamanho o pânico de estar fora do meu país, longe de ambas as famílias, grávidas de gêmeos (e desempregada, aliás). Aqui eu poderia fazer um aborto legalmente. A médica foi super bacana e disse que era meu direito se eu quisesse, ela não me julgaria. E olha, que coisa linda ouvir isso.

Mas aconteceu uma coisa bem doida. Assim que verbalizei “não quero ter”, me acalmei. Com aquela paz de quem tem o privilégio de tomar essa decisão sem julgamentos, com o apoio do companheiro e amor da minha vida e direito a serviço de saúde público. De quem tem a confiança de ser reconhecida como protagonista da própria vida e do próprio corpo. E me senti fortalecida, não uma vítima da circunstâncias. Fiquei pensando, puxa, vai que é essa a coisa mais incrível que a vida nos preparou? E decidimos: vai ser uma loucura, mas vai ser legal!

Sabem o que aconteceu depois? Os dois embriõezinhos que tinham sete milimetros na primeira ultrassonografia chegaram a quase 3 centímetros antes dos corações pararem de bater. Aumentaram quatro vezes de tamanho. Tavam CAGANDO para insegurança e para o chororô da mãe. Os corações pararam de bater quando eu já estava bem tranquila, e sequer tive algum indício de que as coisas não iam bem.

Ontem li um depoimento numa revista dessas de maternidade de uma mulher que, tentando ter o segundo filho, engravidou de trigêmeos. Ela não fala nada de aborto, até porque é ilegal no Brasil, mas conta que chorou desesperada por um mês inteiro quando descobriu (eu só chorei uma tarde, olha que sucesso). E sabe o que aconteceu? Os três nasceram saudáveis. Também ignoraram completamente a pobre mãe desesperada.

A maior parte dos abortos espontâneos no primeiro trimestre acontece por questões genéticas e não ambientais. Ou seja, má formação do embrião. A grávida pode estar desejando muito, feliz, tomando todos os cuidados. Pode estar desesperada e esconder da família durante meses. Pode não saber que está grávida por muito tempo. Pode ser lutadora de MMA e combater nesse estado. Pode estar como eu, um pouco surpresa, depois assustada com os gêmeos, mas tomando ácido fólico, comendo direitinho, dormindo bem. Pode um monte de variáveis, e óbvio que é melhor que esteja tudo bem. Mas nada disso será fator determinante para a gravidez seguir adiante ou não. Se dependêssemos de grávidas bem alimentadas, felizes e em repouso para nos perpetuarmos como espécie, não teríamos chegado até aqui.

O discurso culpabilizador é cruel por dois motivos. Primeiro, o óbvio, por aumentar o sofrimento de quem já está em luto. Depois, por implicitamente dar a entender que é muito fácil sofrer um aborto. Se para interromper uma gestação bastasse entrar em pânico, não teríamos tantas mulheres morrendo de aborto clandestino no Brasil. Era só se concentrar muito aí na dor, na rejeição, na revolta, e olha que surpresa, depois de uma semana sangrando, problema resolvido.

Não, gente. Não. Em estágios mais adiantados da gestação o feto começa a ouvir o que acontece do lado de fora, e imagino que possa se estressar se a gávida estiver em um ambiente ruim. Mas no comecinho não é assim que funciona.

O fato de eu não me sentir culpada não me impede de temer discursos culpabilizadores. Porque eu sei que vou me aborrecer com eles. E sabem o que é pior? Tenho quase certeza que virão, em algum momento.

Por favor, não seja essa pessoa. Nunca. Com ninguém.

Das maneiras de lidar com um aborto espontâneo

A ultrassonografia foi as nove e meia da manhã. O consultório era perto, voltamos pra casa perto das dez. E comecei a beber assim que pisei em casa. Tomei três taças grandes de vinho – do porto. E bebi mais no almoço. Fui ao hospital marcar a aspiração intra-uterina levemente embriagada. Acho que sóbria não aguentaria as duas horas de espera na recepção da maternidade e o desfile de grávidas orgulhosas. Nem bebendo foi fácil.

No fim de semana passado, além de muito álcool, comi um filézão de atum quase cru. E ontem foi o dia de comer um camembert sensacional de leite cru também. Talvez inclua ostras ou carpaccio nas próximas refeições. Já falei que eu tenho bebido um tanto? Não se preocupem, não é alcoolismo, é só saudade. Saudade do álcool que era proibido, saudade da gravidez que foi embora. Um dia passa. Espero.

Recomendo a quem tiver a infelicidade de passar por isso. Faça qualquer coisa prazeirosa que você não podia fazer porque estava grávida: de encher a cara a descolorir o cabelo. Não passa a dor, mas ajuda a lembrar que tem umas coisas beeeeem legais na vida das quais você não precisa mais se privar.
Ah, sim. Fora que, né? Subitamente, estamos ricos. 😉

A farsa

A sensação que me acompanha a vida toda é a de ser uma farsa. Tem a ver com a síndrome da impostora, mas tem mais do que isso, porque um dos meus maiores medos é enlouquecer. É descobrir que a realidade não existe, que eu estou delirando. Como naqueles filmes em que a gente descobre que tudo o que viu era parte da doença psiquiátrica do protagonista.

Porque você descobre que está grávida, mas além de tomar ácido fólico e parar de beber, a grande verdade é que, externamente, não muda porra nenhuma. Por isso, aliás, tenho ainda mais convicção da minha defesa do direito ao aborto – materialmente, tudo aconteceu no meu útero e as pessoas só foram comunicadas e sonharam com essas crianças que viriam porque eu permiti. Tivesse ficado quietinha e resolvido que não queria, não era da conta de ninguém, nem tinha que ser.

Daí eu descobri essa bomba aí de serem dois. E tava sozinha no consultório, porque não sabia que faria uma ultrassonografia. Foi a primeira vez que eu fui à ginecologista aqui. E, né, tudo em língua estrangeira, o que deixa essa impressão mais onírica. Saí de lá achando que eu era aquela brasileira que inventou que tinha sofrido um ataque neonazista na Suíça e tava grávida de gêmeos (se você não lembra da história, desculpa, não vou dar o link, porque acho que a moça tem o direito a ser esquecida). Claro que eu tô inventando, onde já se viu, trepo um dia sem camisinha e apareço grávida de dois?

Ficava olhando a ultrassonografia impressa. Lendo e relendo. Vendo as fotos. E foi um alívio que o Daniel estivesse comigo quando finalmente descobri que os corações já não batiam. Não só porque, óbvio, eu precisava do apoio dele, mas porque – finalmente! – uma testemunha. Porque, sozinha, ia achar que sonhei tudo isso.

Por isso a farsa. A gente conta pras pessoas que vai ter bebê(s) e depois, cadê? Somos a promessa não cumprida. Quase um golpe mesmo. Olha lá, disse que tava grávida, imagina, tem nada aí não.

Mas tem o outro lado. Porque eu não quis engravidar. Aconteceu, aceitei, mas não significa que eu queira de novo. A verdade é que não quero. Posso mudar de ideia, mas hoje não tenho vontade. Só que eu anunciei algo que não se concretizou. Virei uma dívida ambulante? Vou dever esses netos, esses sobrinhos, esses primos? Vou virar pra sempre uma conta negativa?

E se eu bater lá no clube das mulheres sem filhos e felizes, vão me expulsar? Vão me olhar com desconfiança? O medo é que nunca mais ninguém aceite como legítima a minha decisão de não ter filhos. Tadinha, sofreu um aborto, ficou traumatizada, e agora diz que não quer mais. Coitada.

Porque afinal, tem isso. Não é maldade, é meio que o resultado dos fatos. Um dia minha decisão de não ter filhos foi ativa. Mas neste exato momento eu não estou grávida só porque a natureza não quis mais que eu estivesse. Não sou, nesse momento, a dona dessa decisão. E o meu medo é que nunca mais minha autonomia seja reconhecida nesse processo.

Do tempo

Clichêzão: o tempo é relativo. Data da última menstruação – e a data usada pelos médicos pra contar o começo da gravidez: 18 de maio. Dia em que fiz o exame de farmácia: 21 de junho. Durante aquela mesma semana fui ao médico e confirmei com um exame de sangue.

A vida já tinha mudado um bom tanto, ao menos nos nossos planos, quando no dia 7 de julho descobri que era uma gravidez gemelar. A partir daí o tempo se arrastou. Porque passado o susto pra digerir a informação, não queria contar nada para a família antes de ter certeza que tudo estava bem com os dois. E a consulta seguinte estava marcada para 31 de julho.

Julho foi o mês mais longo da história de todos os meses. Um mês em que deu tempo de me desesperar, mas deu tempo de tentar visualizar a vida com dois bebês. Deu tempo de procurar carrinho pra dois e casa pra quatro – mais as visitas eventuais. Deu tempo de sonhar com duas crianças idênticas disputando corridas de velotrol. Deu tempo de imaginar seu nomes e pensar que o mais provável é que nascessem com muitos cabelos escuros, afinal mãe e pai são muito cabeludos. Deu tempo de sonhar que teriam os olhos grandes da mãe e as bochechas fofas do pai.

E aí veio o dia 31 e nós soubemos que mais nenhum coração batia aqui dentro além do meu mesmo – que deve ter batido bem fraquinho quando recebi a notícia, aliás.

E agora já tem duas semanas que eles não estão mais por aqui e levaram também todos os planos. Levaram todo o futuro que existia com eles. Um futuro aspirado a vácuo de dentro do meu útero – que imagem esquisita.

E a gente volta a ter a vida que tinha em maio. Uma vida excelente, aliás, em que nenhuma criança estava prevista.

Mas é meio chocante perceber como tudo foi absolutamente intenso, como essas duas semanas foram tão rápidas, como daqui a pouco tudo isso vai ser só história.

Da Inveja

É feio, né? Falar que tem inveja. Olha o recalque e etc.

Mas é isso. Não é secar. Não é querer o mal nem nada. Mas é inveja sim de quem desfila a barriga por aí. Das fotos das roupinhas da criança que vai nascer. E nem é inveja de quem tem filho. É só das próximas etapas do processo, aquelas que eu já estava visualizando ali na esquina e não vão rolar.

Sim, queria o que essas pessoas têm. No caso, ao menos um bebê saudável se desenvolvendo na minha barriga.

… e da humilhação

Dar o lugar no metrô pra grávidas. Já aconteceu depois do aborto, vai continuar acontecendo. Antes, ainda grávida, eu pensava “beleza, passo a vez, daqui a pouco sou eu”. Agora penso “engole o choro, esse lugar aí não é seu, é dela, que não foi chutada do clube”. Então me levanto resignada como alguém que não tem mais o direito de estar ali. Como se todo mundo em volta soubesse, como se a grávida estivesse me olhando com pena e dizendo “oh, pobrezinha, entendo sua dor, mas minha barrigona com um bebê saudável pesa muito!”. Mas eu levanto porque imagino que pese mesmo e minha dores são um problema meu, não dela.

Mas não é legal.