A farsa

A sensação que me acompanha a vida toda é a de ser uma farsa. Tem a ver com a síndrome da impostora, mas tem mais do que isso, porque um dos meus maiores medos é enlouquecer. É descobrir que a realidade não existe, que eu estou delirando. Como naqueles filmes em que a gente descobre que tudo o que viu era parte da doença psiquiátrica do protagonista.

Porque você descobre que está grávida, mas além de tomar ácido fólico e parar de beber, a grande verdade é que, externamente, não muda porra nenhuma. Por isso, aliás, tenho ainda mais convicção da minha defesa do direito ao aborto – materialmente, tudo aconteceu no meu útero e as pessoas só foram comunicadas e sonharam com essas crianças que viriam porque eu permiti. Tivesse ficado quietinha e resolvido que não queria, não era da conta de ninguém, nem tinha que ser.

Daí eu descobri essa bomba aí de serem dois. E tava sozinha no consultório, porque não sabia que faria uma ultrassonografia. Foi a primeira vez que eu fui à ginecologista aqui. E, né, tudo em língua estrangeira, o que deixa essa impressão mais onírica. Saí de lá achando que eu era aquela brasileira que inventou que tinha sofrido um ataque neonazista na Suíça e tava grávida de gêmeos (se você não lembra da história, desculpa, não vou dar o link, porque acho que a moça tem o direito a ser esquecida). Claro que eu tô inventando, onde já se viu, trepo um dia sem camisinha e apareço grávida de dois?

Ficava olhando a ultrassonografia impressa. Lendo e relendo. Vendo as fotos. E foi um alívio que o Daniel estivesse comigo quando finalmente descobri que os corações já não batiam. Não só porque, óbvio, eu precisava do apoio dele, mas porque – finalmente! – uma testemunha. Porque, sozinha, ia achar que sonhei tudo isso.

Por isso a farsa. A gente conta pras pessoas que vai ter bebê(s) e depois, cadê? Somos a promessa não cumprida. Quase um golpe mesmo. Olha lá, disse que tava grávida, imagina, tem nada aí não.

Mas tem o outro lado. Porque eu não quis engravidar. Aconteceu, aceitei, mas não significa que eu queira de novo. A verdade é que não quero. Posso mudar de ideia, mas hoje não tenho vontade. Só que eu anunciei algo que não se concretizou. Virei uma dívida ambulante? Vou dever esses netos, esses sobrinhos, esses primos? Vou virar pra sempre uma conta negativa?

E se eu bater lá no clube das mulheres sem filhos e felizes, vão me expulsar? Vão me olhar com desconfiança? O medo é que nunca mais ninguém aceite como legítima a minha decisão de não ter filhos. Tadinha, sofreu um aborto, ficou traumatizada, e agora diz que não quer mais. Coitada.

Porque afinal, tem isso. Não é maldade, é meio que o resultado dos fatos. Um dia minha decisão de não ter filhos foi ativa. Mas neste exato momento eu não estou grávida só porque a natureza não quis mais que eu estivesse. Não sou, nesse momento, a dona dessa decisão. E o meu medo é que nunca mais minha autonomia seja reconhecida nesse processo.

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