Do clube no qual ninguém quer entrar

Em maio deste ano o marido da Sheryl Sandberg, a executiva fodona do Facebook, morreu de maneira inesperada, em uma acidente doméstico – caiu da esteira mecânica quando se exercitava. Na época li um texto que dizia que ela tinha entrado para um clube no qual ninguém tinha prazer em ser admitida – o das viúvas jovens, em especial com filhos pequenos pra criar.

Eu estava lá muito feliz e contente lá na turma das mulheres que nunca sonharam em ser mães e acham a vida plena e feliz sem experimentar a maternidade. Daí engravidei sem planejar. E, quando soube, uma amiga que tem um filho me disse “bem vinda ao clube!”. E aquilo me incomodou. Porque eu ainda não estava nesse clube. Na verdade, ainda estava em um luto tranquilo pelo clube maravilhoso do qual fazia parte antes, no qual achei que fosse ficar toda a minha vida. Eu ia ter tempo pra aceitar passar de um clube para o outro, porque a natureza, apesar de muito sacana, nos dá aí uns bons meses para assimilar a informação enquanto sofremos com azia e prisão de ventre.

Só que não. A gravidez não foi pra frente. Não tive tempo de entrar no clube das mães. Mas já tinha deixado o clube anterior. Fui trocar de trem, perdi o seguinte. E as coisas caminharam sem mim. As coisas continuam caminhando sem mim, as pessoas felizes e celebrando suas lindas barrigas. Essa era a semana em que deveríamos estar anunciando pras pessoas que fizemos a ultrassonografia de 12 semanas e tá tudo bem. A semana em que finalmente ia comprar as meias de compressão e os cremes pra estrias. Talvez comprasse uma roupinha só pra começar  – duas roupinhas, porque esperávamos gêmeos. A semana em que contaríamos pra família que demoramos, mas olha só, fizemos dois de uma só vez! E todo mundo ia ficar surpreso, achar lindo, etc

Mas os planos ficaram no dia 31 de julho. Os fetos, no Hospital, dia 3 de agosto. E gravidez é bem provável que ainda esteja por aqui, porque os níveis hormonais demoram um tempo pra voltar ao normal.

Não entrei no clube das mães. Fui chutada pra fora do clube das grávidas. Entrei pra um clube bem chato de estar, o das que foram-sem-nunca-terem-sido. Tenho lido muito e acredito que uma perda gestacional seja muito dolorida pra alguém que já tem filhos, porque dor não se mede. Mas uma mulher que já tem filhos e passa por um aborto, natural ou não, continua sendo uma mãe. Uma pessoa que não quis ter filhos, engravidou, e decidiu fazer um aborto, continua uma mulher sem filhos. Mas e uma pessoa que foi traída pelo desejo? Uma mulher que nunca sonhou em ter filhos, continua não sonhando, mas que ficou feliz em ter o seu corpo habitado quando finalmente aconteceu? Alguém que, durante 40 dias, aceitou que a vida toda ia mudar, saiu do lugar onde estava, e agora já não pode mais voltar?

Fiquei no limbo. No lugar do luto sem rosto. No lugar da perda sem nome e mal compreendida socialmente.

O limbo é um lugar em que ninguém quer estar.

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