Da (ausência de) culpa

Não, eu não estava empolgadona desde o começo, mas tava curtindo.

Só que quando descobri que eram dois, pensei seriamente em não continuar com a gravidez, tamanho o pânico de estar fora do meu país, longe de ambas as famílias, grávidas de gêmeos (e desempregada, aliás). Aqui eu poderia fazer um aborto legalmente. A médica foi super bacana e disse que era meu direito se eu quisesse, ela não me julgaria. E olha, que coisa linda ouvir isso.

Mas aconteceu uma coisa bem doida. Assim que verbalizei “não quero ter”, me acalmei. Com aquela paz de quem tem o privilégio de tomar essa decisão sem julgamentos, com o apoio do companheiro e amor da minha vida e direito a serviço de saúde público. De quem tem a confiança de ser reconhecida como protagonista da própria vida e do próprio corpo. E me senti fortalecida, não uma vítima da circunstâncias. Fiquei pensando, puxa, vai que é essa a coisa mais incrível que a vida nos preparou? E decidimos: vai ser uma loucura, mas vai ser legal!

Sabem o que aconteceu depois? Os dois embriõezinhos que tinham sete milimetros na primeira ultrassonografia chegaram a quase 3 centímetros antes dos corações pararem de bater. Aumentaram quatro vezes de tamanho. Tavam CAGANDO para insegurança e para o chororô da mãe. Os corações pararam de bater quando eu já estava bem tranquila, e sequer tive algum indício de que as coisas não iam bem.

Ontem li um depoimento numa revista dessas de maternidade de uma mulher que, tentando ter o segundo filho, engravidou de trigêmeos. Ela não fala nada de aborto, até porque é ilegal no Brasil, mas conta que chorou desesperada por um mês inteiro quando descobriu (eu só chorei uma tarde, olha que sucesso). E sabe o que aconteceu? Os três nasceram saudáveis. Também ignoraram completamente a pobre mãe desesperada.

A maior parte dos abortos espontâneos no primeiro trimestre acontece por questões genéticas e não ambientais. Ou seja, má formação do embrião. A grávida pode estar desejando muito, feliz, tomando todos os cuidados. Pode estar desesperada e esconder da família durante meses. Pode não saber que está grávida por muito tempo. Pode ser lutadora de MMA e combater nesse estado. Pode estar como eu, um pouco surpresa, depois assustada com os gêmeos, mas tomando ácido fólico, comendo direitinho, dormindo bem. Pode um monte de variáveis, e óbvio que é melhor que esteja tudo bem. Mas nada disso será fator determinante para a gravidez seguir adiante ou não. Se dependêssemos de grávidas bem alimentadas, felizes e em repouso para nos perpetuarmos como espécie, não teríamos chegado até aqui.

O discurso culpabilizador é cruel por dois motivos. Primeiro, o óbvio, por aumentar o sofrimento de quem já está em luto. Depois, por implicitamente dar a entender que é muito fácil sofrer um aborto. Se para interromper uma gestação bastasse entrar em pânico, não teríamos tantas mulheres morrendo de aborto clandestino no Brasil. Era só se concentrar muito aí na dor, na rejeição, na revolta, e olha que surpresa, depois de uma semana sangrando, problema resolvido.

Não, gente. Não. Em estágios mais adiantados da gestação o feto começa a ouvir o que acontece do lado de fora, e imagino que possa se estressar se a gávida estiver em um ambiente ruim. Mas no comecinho não é assim que funciona.

O fato de eu não me sentir culpada não me impede de temer discursos culpabilizadores. Porque eu sei que vou me aborrecer com eles. E sabem o que é pior? Tenho quase certeza que virão, em algum momento.

Por favor, não seja essa pessoa. Nunca. Com ninguém.

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