O Império dos Hormônios – ou ainda: gente é bicho

Os primeiros dias depois do aborto foram de um sofrimento inominável. Além de chorar compulsivamente, eu sofria pelo pedaço de mim que tinham arrancado. Tudo doía. Existir doía. Lembrar que meu útero estava vazio doía.

Acontece que o organismo demora uns bons dias (semanas, talvez?) para eliminar todos os hormônios da gravidez. Capaz que se eu fizer um teste desses de farmácia agora ele ainda dê positivo.

Mas aí, semana passada, aconteceu uma coisa constrangedora. Encontramos uma colega de trabalho do Daniel na fila do cinema. Como ele havia contado pras pessoas que seria pai de gêmeos – e tava adorando a atenção recebida – ela nos cumprimentou e, dois minutos depois, perguntou se minha gravidez estava sendo tranquila.

Eu já fui essa pessoa que perguntou a uma mulher não-mais-grávida como estavam as coisas. E olha, era uma situação em que a pessoa já estava me detestando, eu precisava quebrar o gelo e tentar ganhar a simpatia dela, e dei uma gafe dessas. Foi um daqueles momentos em que a gente quer ser tragada pelo chão. Talvez o pior constrangimento de toda a minha vida.

Por isso senti uma tremenda empatia pela moça. Porque pra mim já não doía tanto dizer que eu não estava mais grávida. Doeu contar pra família, que cria expectativas. Para uma pessoa quase estranha, era só uma informação desagradável.

E depois eu achei graça. Um riso mórbido de quem se dá conta de que virou uma fonte de constrangimento ambulante – vida, sua sacana. No dia seguinte, marido disse que passou na mesa da moça e ficaram uns 5 minutos no jogo de constrangimento “me desculpe”, “eu que me desculpo, você não tinha como saber”, “mas eu não deveria ter perguntado”, “você tava tentando ser gentil”.

A simples imagem dos dois nesse jogo do constrangimento me fez gargalhar. GAR-GA-LHAR.  Sabe quando você se dá conta de que não é o centro do universo? Eu saí do centro da minha dor. De repente, o luto não era mais sobre mim, mas sobre o constrangimento alheio. Eu não era mais uma vítima solitária, mas uma personagem da comédia humana.

E bom, rir libera serotonina, né? Um hormônio também. De repente eu tava mais leve e sorridente. E até com alguma satisfação de quem sobreviveu, ufa. É triste pra caramba, mas eu tô bem, não perdi minha capacidade de rir de mim mesma. Tudo vai se ajeitar. O buraco no peito vai ficar pra sempre, mas todo mundo tem suas perdas. Essas serão as nossas.

E foi essa a receita. Uma dose maior de serotonina, menos Beta-HCG e progesterona, e de repente eu me reconheço de novo. Mas fica o assombro com o quanto o organismo é refém desses processos químicos. O quanto nenhuma reflexão equilibrada dá conta de retomar o equilíbrio.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s