Minha racionalidade não pode me defender

Desde o começo eu sabia. 20% das gestações acabam em aborto espontâneo. Aconteceu com um monte de gente que eu conheço. Daí, na hora de contar pra família, eu disse: “olha, não se empolguem muito, o começo é delicado e tal”.

Minha colega de trabalho contou assim para o pai “olha, tem 80% de chance de você ganhar mais um neto”.

Não comprei nada além de ácido fólico e deixei qualquer decisão importante pra ser tomada depois das fatídicas 12 semanas.

E ainda assim, com os dois pés no chão, nada poderia me preparar para a dor. NADA. Porque é comum, é natural, mas não é “normal”. E nem é excesso de otimismo querer estar entre a grande maioria, 80%.

Eu e a colega de trabalho caímos nos 20%. Ela, por duas vezes. E nem essa tranquilidade de saber que não fiz absolutamente nada de errado, só saí perdendo em uma das muitas loterias da vida (tenho ganhado na maior parte delas) ameniza porra nenhuma. DÓI.

Meu estoicismo não pode me defender

Não sou uma pessoa apaixonada. Não sou uma pessoa entusiasmada. Não há nada que eu sonhe realizar na vida. Eu só vivo. E não sou boa com projeções, só com a realidade.

Na minha cabeça estóica, viver tratava-se só de aceitar os fatos. Ou um dia eu vou engravidar, daí vejo o que faço, ou não vou engravidar nunca, e tudo bem também. Ok, 20% das gestações terminam em abortos naturais, mas eu nem cogitava isso. Não por excesso de otimismo – não trabalhamos – mas por que me parecia que só havia essas duas possibilidades. Eu aceito as possibilidades, meu controle limitado sobre elas, e todo o sofrimento se torna fútil, certo?

Mas a terceira possibilidade, a não prevista, era o limbo. Engravidar, tomar o susto, aceitar, ouvir corações batendo, e começar a fazer planos. Não sonhos, previsões, mas planos concretos de alguém que daqui há 3 semanas não vai conseguir entrar nas próprias calças. De alguém que saiu da primeira consulta médica com a indicação pra comprar meia de compressão pras varizes. Ou seja, lista de tarefas, não projeções. E depois de tudo isso, olha lá, cabou, não tem mais.

Fracassei no estoicismo, porque comecei a fazer planos e não só a aceitar os fatos. Segundo o google, “No results found for “grávida estóica’”. Eu bem que tentei.

Do clube no qual ninguém quer entrar

Em maio deste ano o marido da Sheryl Sandberg, a executiva fodona do Facebook, morreu de maneira inesperada, em uma acidente doméstico – caiu da esteira mecânica quando se exercitava. Na época li um texto que dizia que ela tinha entrado para um clube no qual ninguém tinha prazer em ser admitida – o das viúvas jovens, em especial com filhos pequenos pra criar.

Eu estava lá muito feliz e contente lá na turma das mulheres que nunca sonharam em ser mães e acham a vida plena e feliz sem experimentar a maternidade. Daí engravidei sem planejar. E, quando soube, uma amiga que tem um filho me disse “bem vinda ao clube!”. E aquilo me incomodou. Porque eu ainda não estava nesse clube. Na verdade, ainda estava em um luto tranquilo pelo clube maravilhoso do qual fazia parte antes, no qual achei que fosse ficar toda a minha vida. Eu ia ter tempo pra aceitar passar de um clube para o outro, porque a natureza, apesar de muito sacana, nos dá aí uns bons meses para assimilar a informação enquanto sofremos com azia e prisão de ventre.

Só que não. A gravidez não foi pra frente. Não tive tempo de entrar no clube das mães. Mas já tinha deixado o clube anterior. Fui trocar de trem, perdi o seguinte. E as coisas caminharam sem mim. As coisas continuam caminhando sem mim, as pessoas felizes e celebrando suas lindas barrigas. Essa era a semana em que deveríamos estar anunciando pras pessoas que fizemos a ultrassonografia de 12 semanas e tá tudo bem. A semana em que finalmente ia comprar as meias de compressão e os cremes pra estrias. Talvez comprasse uma roupinha só pra começar  – duas roupinhas, porque esperávamos gêmeos. A semana em que contaríamos pra família que demoramos, mas olha só, fizemos dois de uma só vez! E todo mundo ia ficar surpreso, achar lindo, etc

Mas os planos ficaram no dia 31 de julho. Os fetos, no Hospital, dia 3 de agosto. E gravidez é bem provável que ainda esteja por aqui, porque os níveis hormonais demoram um tempo pra voltar ao normal.

Não entrei no clube das mães. Fui chutada pra fora do clube das grávidas. Entrei pra um clube bem chato de estar, o das que foram-sem-nunca-terem-sido. Tenho lido muito e acredito que uma perda gestacional seja muito dolorida pra alguém que já tem filhos, porque dor não se mede. Mas uma mulher que já tem filhos e passa por um aborto, natural ou não, continua sendo uma mãe. Uma pessoa que não quis ter filhos, engravidou, e decidiu fazer um aborto, continua uma mulher sem filhos. Mas e uma pessoa que foi traída pelo desejo? Uma mulher que nunca sonhou em ter filhos, continua não sonhando, mas que ficou feliz em ter o seu corpo habitado quando finalmente aconteceu? Alguém que, durante 40 dias, aceitou que a vida toda ia mudar, saiu do lugar onde estava, e agora já não pode mais voltar?

Fiquei no limbo. No lugar do luto sem rosto. No lugar da perda sem nome e mal compreendida socialmente.

O limbo é um lugar em que ninguém quer estar.

Aviso: sou privilegiada

Na série sucesso do Netflix, Sense8, há uma cena em que Riley, a moça islandesa, está num avião e aparece Capheus, o queniano, ao seu lado. E ele diz que ela tem muita sorte de estar lá, vendo as nuvens de cima. E ela responde que não é sortuda: é privilegiada.

Quando mais adiante, conhecemos o passado dela, sabemos que sua história é marcada por muita tragédia. Não, ela não tem sorte, mas não nega seus privilégios.

Eu, de maneira geral, sou sortuda E privilegiada. Mas sofri um aborto espontâneo de uma gravidez desejada o que, vejam só, tem nada de sorte. Só que toda a minha experiência com isso esta sendo marcada pelos meus privilégios todos.

Então se, por acaso, você chegou aqui e não me conhece, vai o aviso: todo o sofrimento aqui descrito leva em consideração a minha posição privilegiada e meus recursos – financeiros, inclusive – pra lidar com ele. O privilégio não nos torne imune às dores.

Eros, Thanatos e o aborto

Deletei o blog anterior. Tudo. Acho que todos os textos. Simplesmente porque podia. Queria destruir alguma coisa, bora destruir algo meu. Algo que alguém possa sentir falta, mas eu tenho direito de matar sem ser considerada sociopata. Deletei textos que muita gente gostou, que me trouxeram muitas coisas lindas. Porque tenho uma pulsão de morte que precisa ser saciada.

Mas aí a vida veio e me deu um aborto. Algo que morreu contra a minha vontade. Então eu crio algo novo. Porque eu posso.